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Instituto de Letras Departamento de Teoria Literária e Literaturas Disciplina: Introdução à Teoria da Literatura Prof. Dra. Luciana Barreto Semestre Letivo: 2023/02 lucianabarreto.unb@gmail.com INTRODUÇÃO À TEORIA DA LITERATURA “[...] recuso deter-me no que é visto sem esforço. Investigo aqueles planos ou camadas do real que só em raros instantes manifestam-se.” Osman Lins I. ENSAIO SOBRE A OBRA (PLANO FORMAL, PLANTA BAIXA DO ROMANCE, ENREDO) Universo amplo e ambivalente de signos, o romance Avalovara (1973), do escritor pernambucano Osman Lins (1924 - 1978), publicado há quase 50 anos, prossegue, ante o público e a crítica, surpreendendo na mesma proporção que desconcerta e desafia – seja por sua inovadora complexidade estrutural e poética cifrada seja por seu pródigo lastro simbólico –, configurando, do ponto de vista da modernidade literária, uma obra ficcional que não guarda paralelos no Brasil. Após a publicação de Nove, Novena (1966), o empenho de renovação narrativa amplia-se com Avalovara – posição reiterada por Benedito Nunes, ao apontar que “uma nova consciência da forma romanesca, enquanto escrita, trouxera nos anos 60 o romance autorreflexivo, voltado para sua própria fatura, narrando o ato de escrever” (NUNES, 1982, p.63). A partir de notável engenho narrativo assentado em rigoroso esquema composicional, o autor agrega a uma trama aparentemente simples – o percurso de um jovem escritor em busca do amor em sua plenitude, do apuro artístico máximo e do êxtase existencial – uma complexa arquitetura sustentando vastas densidades poética e simbólica e imprimindo, ainda, à galeria de personagens e ao leito textual, inventivos recursos expressivos, além de um amplo e estreito diálogo tanto com o imaginário judaico-cristão, a exemplo dos textos fundadores alusivos à Criação, como Gênesis, o mais cosmogônico dos capítulos bíblicos e seus desdobramentos na literatura clássica mundial, quanto com os universos míticos de outras tradições antigas. No plano formal, a fatura de originalidade de sua obra é reconhecida pelo próprio Osman Lins: “pesquisei muito e não achei antecedente algum onde pudesse apoiar minha obra. Então parti para a invenção – código diferente e estrutura nova.” (LINS, 1979, p.171). Como uma espécie de escultura escritural, o romance expõe sua inventividade desde o seu ponto de partida, ao se movimentar a partir de três elementos compositivos: a espiral, o quadrado e o palíndromo. Seguindo a exata geometria disposta no palindrômico quadrado mágico SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS – cujos entendimentos podem ser “o lavrador mantém cuidadosamente a charrua nos sulcos” ou ainda “o Criador mantém cuidadosamente o mundo em sua órbita” –, a trama se desenvolve segundo o giro da espiral que acessa, uma a uma, as letras da referida frase latina, as quais formam oito blocos narrativos, com distintas histórias, que se revezam e se entrecruzam à medida que são tocadas por esse mecanismo cíclico, perpassando os 25 quadrados relativos às letras do palíndromo. A partir da história de cada uma, tais linhas podem ser associadas em três grandes grupos: S e P como metanarrativos ao espelharem e refletirem a construção do romance; A e T, o amor de Abel por Annelise Roos e por Cecília; R, O, E e N, a paixão do protagonista Abel e o seu envolvimento com , configurando o termo da sua busca amorosa, existencial e literária. Cinco palavras, cada uma com cinco letras, em uma frase passível de ser lida nos dois sentidos, constituem, então, essas oito séries temáticas dispostas em vinte e cinco pequenos quadrados, conformando, desse modo, a trama de Avalovara, ligando, assim, o destino de Abel a três mulheres que o conduzem à sua jornada rumo ao êxtase amoroso e a progressivas iluminações quanto ao sentido da vida e do mundo, por meio de suas indagações e expressões como homem, escritor, criador. Dados os elementos que configuram sua marca de modernidade literária – personagens multifacetados, fusões temporais, saltos espaciais, vozes difusas, dispersão e multiplicidades de focos narrativos e reflexões metalinguísticas – de início, o leitor desavisado segue, por meio dos fragmentos narrativos, colhendo símbolos, perseguindo pistas, desvelando sinais e compondo, pouco a pouco, sua compreensão a partir das intrincadas redes ficcionais, tal como um quebra-cabeça cujo entendimento se constrói na medida em que as peças somam significados e assumem sua inteireza semântica. LINHA S – A Espiral e o Quadrado – Ao recorrer aos princípios da aritmética e da geometria, valorando, com absolutos rigor e precisão, números e formas, em nome de sua pretensão cosmogônica, Osman Lins instituiu a figura fundadora de sua obra: a espiral projetada sobre o quadrado – este último operando como recurso de contenção do primeiro, o necessário limite (espacial), arbitrado e compreendido pelo texto, imposto à infinitude, ao progressivo, incessante desdobramento suscitado pelo tempo. Desse modo, é exposta a estrutura do romance: “o quadrado, a que nos referimos e que constitui, por assim dizer, o recinto desta obra – a qual, sem isto, arrastada pelo galope incansável da espiral, perder-se-ia por falta de limites” (1973, p. 54). E assim prossegue: “Como, então, fazer repousar a arquitetura de uma narrativa, objeto limitado e propenso ao concreto, sobre uma entidade ilimitada [a espiral] e que nossos sentidos, hostis ao abstrato, repudiam?” (LINS, 1973, pp. 15-17). Indagação respondida: “Sendo a espiral infinita, e limitadas as criações humanas, o romance inspirado nessa figura geométrica aberta há que socorrer-se de outra, fechada – e evocadora, se possível, das janelas, das salas e das folhas de papel [...]. O quadrado [...]” (1973, p. 19). Nesse romance, que empreende a própria alegoria de romance, na referida linha S, o palíndromo, como já explicado, o qual fornece as diretivas da narração, é inventado, no ano 200 a.C., por Loreius, um escravo de Pompeia que, para obter sua liberdade, aceita, diante do seu senhor Publius Ubonius, o obstinado desafio de compor “uma frase significativa” que pudesse ser lida “da esquerda para direita – e ao revés”, com o propósito de “representar a mobilidade do mundo e a imutabilidade do divino” (LINS, 1973, p. 24). Ao final dessa estória, o desfecho trágico, por parte de Loreius, que se suicida ao flagrar Tyche, cortesã a quem revelara a descoberta, e assim a sua promessa de liberdade, vendendo o segredo-trunfo a Publius – e este, por sua vez, é acometido por um drama de ordem ética, ao se valer 1. Releiam o bloco narrativo S - A Espiral e o Quadrado , com atenção, e discorram – considerando, inclusive, o método de escritura osmaniano, em especial, a metanarratividade – sobre o possível diálogo entre a estória do escravo e de seu senhor e a notável passagem do Mito da Caverna, alegoricamente disposta por Platão no Livro VII, da República, a partir da qual pessoas nasciam e viviam sob o jugo do aprisionamento, no interior de uma morada subterrânea, imóveis e acorrentadas de costas para a saída, enxergando tão somente as sombras projetadas à frente. Um dos prisioneiros, porém, consegue libertar-se das algemas e atesta que o mundo ali restrito era projetado, ilusório e enganoso, sendo as sombras cópias imperfeitas da realidade exterior, passível de ser acessada por meio do processo de obtenção de consciência do mundo das ideias, isto é, o horizonte inteligível. Desdobrem, livremente, a analogia possível entre o protótipo do filósofo (o personagem de Platão que se desagrilhoa das correntes e não consegue comunicar o que é visto e apreendido) e a angustiada tomada de consciência de Publius (fragmento S 10) em um apelo onírico, o qual vaza para o plano da percepção concreta – “Qual a importância de especulares, como fazes, sobre o incompreensível, a ponto de prometeres a liberdade a um escravo teu, caso ele descubra uma frase que aplaque a tua fome de mistério, se és capaz de – desatento ao mistério imediato das relações entre o homem e as suas descobertas, e sem respeito algum pelo espanto do homem em face de suas próprias criações – roubar-lhe o que naturalmente lhe pertence?” (LINS, 1973, p. 95). Referências Lins, Osman. Avalovara. São Paulo: Melhoramentos, 1973. __________. Evangelho na taba: outros problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979. __________. Guerra sem Testemunhas. São Paulo: Ática, 1969. PLATÃO. A República. Introdução, Tradução e notas: Maria Helena da Rocha Pereira. 7ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, 515 p. Extensão: de 3 a 5 páginas. Entrega: 23 de dezembro.

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